“Na próxima encarnação serei… um feijão! Ou melhor, um feijão preto. Ah como eu gostaria de estar em sua feijoada, aí vc sentiria meu gostinho e diria:
- Que gostoso esse neguinho!!!”
*****************A História de um cara que virou feijão********************
Noite de 5 de agosto de 1995, 20:17 horas. Tempo bom e temperatura agradável.
Eu ia andando tranquilamente para o ponto de ônibus e, confesso, com algumas cervejas na cabeça. Tudo tranqüilo até que, sem perceber o sinal para pedestres fechado, atravessei a rua num ato absurdo de não olhar o que vinha trafegando pela mesma.
Quando dei por mim e fui olhar para os lados, já no meio da rua e sem chances de escapar, vi aquele veículo rústico e forte em alta velocidade vindo em minha direção. Já consciente de que não tinha chances de me esquivar do veículo, apenas fechei os olhos e esperei o impacto da colisão.
- Poft!!! Senti meu corpo sendo lançado ao ar. Contrariando as leis da gravidade, ele ia subindo, subindo, subindo. Até que finalmente, respeitando as leis da gravidade, desceu. No tempo decorrido da descida , pude perceber a força da colisão: Vi – meu Deus, que desgraça – o veículo perdendo o controle e foi direto ao encontro de um poste. O veículo, lotado e sem chances também de se esquivar da estaca de concreto, se arrebentou, lançando o motorista pra fora. Vi também, pelas laterais do veículo, um líquido vermelho, que escorria até o chão. Eu ainda descendo, e já bem perto do chão, vi ainda o motorista se levantar, meio tonto pelo impacto da batida, olhar para o lado e... num grito ensurdecedor, ajoelhou-se ao chão, dizendo:
- Não. Meu Deus, não pode ser!
Tive então tempo de olhar para o seu lado e ver que – Meu Deus, não pode... mas era – O seu cavalo esfacelara-se no poste, e não pudera escapar. Na certa morreu de traumatismo craniano. Nesse mesmo instante olhei para o lado e vi que o líquido vermelho que pingava ao chão, descia de muitos corpos esmagados no interior do veículo. E ainda ouvi o motorista gritar:
- Meus tomates, meu Deus, esmagaram-se todos! – passando ao mesmo tempo a mão na polpa vermelha que escorria pela lateral de sua carroça.
De repente: CAPLUM. Finalmente cheguei ao solo, batendo co a cabeça no meio-fio. Senti meu corpo paralisar e minha alma desprender-se dele.
Já no hospital pude perceber o médico dizer:
- Não há mais nada possamos fazer. Pode desligar, enfermeira.
- Morri? Morri. Meu Deus, nããããão...
Foi então que já pude perceber meu velório: muita gente triste, chorando. Mas também alguns, assim, não muito tristes, e outros até por assim dizer, contentes. Também, eu não era nem um modelo de santo, não é mesmo?
Começaram então o cortejo funeral, saindo com o féretro com destino ao cemitério... e quando vi minha sepultura... – Que massa!!! – pensei comigo: - mamãe cumpriu meu pedido, mandando lapidar no sepulcro o meu pensamento sobre a morte.
Sepultaram-me e foram todos presentes embora, e eu fiquei sozinho ali. Eu e minha sepultura - um pouco fria, mas confortável.
Quando pensei em dar uma volta e conhecer alguns assim, digamos, “como eu”, notei um clarão vindo do céu, e vi São Pedro surgir por entre as luzes. É gente, o Pedrinho, surgiu e me chamou para acompanhá-lo até “lá em cima”
Falei:
- Poxa, Pedroca, tinha uma gata no sepulcro ao lado, não dava pra ir mais tarde?
-Não meu filho, você tem de ir já. Ordens do Todo-Poderoso...
- Mas por que ela então não subiu ainda, se já morreu há mais tempo que eu, como pude ler no seu jazigo?
- Porque meu filho, ela era uma... uma... p... pecadora, e tem que ficar no intermédio; por vocês chamado de purgatório, para se purificar. E você; bom, você sempre foi um rapaz... é... como direi... ham... equilibrado...
E quando desviei os olhos do Pedroca...
- aaaaaaaaaaiiiiiiiiiiii... caraaaaaaaca! – estava a uns dois mil metros de altura.
- Calma, filho, agora você tem o dom de voar, é um espírito – disse São Pedro, calmamente
Foi então que liguei meus “motores e comecei a fazer manobras radicais, enquanto subia aos céus
- Iurruuuuuuuuu, iupiiiiiiiiiiiii, que legal – cortava os céus a uns 300 km/h – ooooooooops – quase trombei de frente com um Boeing 747-300 que passava por ali
- Credo, se bater nesse daí não sobra nem pena das minhas asas – e continuei com meus malabarismos aéreos e...
- HAM, HAM, HAM...
Olhei e vi Aquele Ser Magnífico, Divino, e...
- Esta é sua nuvem, meu filho – disse Deus
Olhei para o meu novo dormitório e até que era agradável aos olhos. Agradeci ao Senhor e... ZUPT, sumiram, Pedroca e Ele. Fiquei ali sozinho. Comecei então a fazer umas bolinhas de nuvem e... BLARGH, CUSP. Não eram como algodão doce, como diziam meus pais quando eu era criança.
Olhei para baixo e pude notar umas pessoas ao redor ta minha tumba. Dali de cima, tão longe, não dava pra notar quem era. Seriam meus pais? Meus amigos? Mas que agonia, quem poderia ser? E aproveitando que Pedroca e Ele não estavam por ali, resolvi descer e conferir.
Liguei meus “motores” e VRUUUUUUUUM, quando cheguei, vi que eram quatro rapazes em volta da minha tumba jogando truco. Minha tumba servia de mesa, e amparava as cartas do baralho, copos de – oba, que delícia – vodca, carne seca, alguns objetos e o que??? Parafernálias para o uso de... Maconha?
Sentei ao lado de um deles e fiquei observando aquela farrinha. Até que, conversa vai, bebida vem, fuminho vai, viagens vêm, resolveram ir embora. Ao recolher as coisas, um tento usado na contagem dos pontos do truco, necessariamente um bago de feijão, caiu. Caiu e rolou até um buraquinho bem ao lado da minha sepultura, certamente feito por algum besouro rola-bosta. O baguinho de feijão entrou por esse buraco e caiu então sobre o meu... – AAAAAAAARGH – cadáver.
Nossa, eu estava todo podre, preto-arroxeado e fedendo, fedendo – UGH – a rato morto. Nos meus restos putrefatos, dançavam livremente os vermes, as varejeiras, os bichos escrotos comedores de matéria orgânica decomposta.
Então: PLUFT. O feijãozinho preto, usando como tento se aninhou em cima do meu – se é que se pode chamar aquilo de corpo – meu corpo putrefato.
Logo após, precipitou-se uma chuva forte, e com a infiltração da água no solo, encharcou todo o espaço onde estava depositados os meus restos. E aquela água acumulada, junto com o movimento dos vermes, colaborou pra que aquilo tudo virasse uma tremenda papa preta, de carne podre, ossos, vermes, terra, e... o feijãozinho preto.
Quando a chuva se foi, surgiu um sol intenso e rapidamente a água evapourou-se dali, ficando uma pasta orgânica e nela, o feijão preto. Aquilo ali, apesar do odor desagradável e forte, representava literalmente um ambiente propício para... – PLOC – e o feijãozinho brotou. Também, com aquele adubo orgânico que se formara – e modéstia a parte, se formara do meu corpo – com certeza era um excelente adubo, e só podia era brotar mesmo.
E o brotinho de feijão, por intermédio de um raio de luz que se infiltrava pelo mesmo buraco buraquinho do besouro, começou a crescer, e subir em direção à luz. Foi subindo, crescendo, em direção ao orifício que iluminava a cova, quando de repente – TUP – saiu para a superfície. E com o passar do tempo se transformou num lindo pé de feijão preto.
CABRUM. POU. TRUM. – escutei assustado. Era o Pedro, atrás de mim, furioso
- Como pôde sair do céu e vir para este reduto do pecado? Como?
- Mas Pedroca...
- Nada de mas, ELE tem uma surpresa pra você. Vamos.
Subimos aos céus de novo. E lá estava Ele, com os Seus Olhos fixos nos meus e com Ar de descontentamento. E disse:
- Você, filho, infelizmente desobedeceu as regras e desceu ao reduto do pecado, e como castigo terei de reencarná-lo. Só que dessa vez sua vida terá um curto período, e você morrerá esmagado, para aí então poder ficar lá, preso no intermédio, para se purificar de seu erro de agora.
Então, pensei no meu acidente ocorrido há pouco tempo. Ele que já fora violento, imagine o próximo então? Com certeza haveria de ser esmagado por uma Scania, ou coisa assim.
- Não, meu filho. – disse Ele – você não irá voltar como humano, e sim como feijão, e agora... vá!
De repente vi que não estava mais nos céus. Estava descendo novamente e, ao longo da descida, imaginava como é que, sendo feijão, poderia, e iria morrer esmagado? Também, nem sabia que feijões morriam. Fiquei tentando entender aquilo tudo, até que... espere... este lugar eu conheço!
Era a minha tumba. A mesma em que presenciara os caras jogando o truco...
E surpreso ao olhar pra mim mesmo, verifiquei que eu era o mesmo pé de feijão que crescera na minha tumba, o mesmo adubado por mim; quero dizer, pelo adubo formado a partir do meu corpo podre. Mas... será possível?
Daí, passaram então três meses. Pensava muito em quando eu era vivo e humano. As coisas que eu poderia estar fazendo agora. Meus amigos, família, projetos, e principalmente naquela garota. Ah, meu Deus, que garota. Ela era tudo pra mim. Sempre sonhei em poder tê-la, e ser dela... sua boca, lábios, seu corpo, sentidos.
Meus dias agora se resumiam à solidão do cemitério. Apenas alguns insetos pousavam em mim, e só. Ninguém passava por ali, ninguém visitava minha sepultura. Comecei a sentir um vazio imenso e pensava se eu não representava nada naquele mundo, naquele mundo que como diria o Pedroca, era o reduto do pecado...
Minha vontade agora era de ter sido mais direto, prático, atencioso, mais direito. Me consumia os dias nesses pensamentos: pensava nos sonhos que não conquistei, me contorcia de remorso. Principalmente quando lembrava que deixei de falar com a pessoa que mais sonhava, e a perdi para todo o sempre. Aquela garota, meu Deus. Meu desejo era agora morrer o quanto antes, e pagar com toda eternidade no purgatório, pra aprender a não deixar de, ao menos, tentar realizar os meus sonhos. Ah, e como eu queria que...
- Mas o que é que? Como pode? Será que?... não, não pode ser... mas é. – é sim é ela, é ela.
De repente eis que surge ela, e senta em minha tumba e começa a rezar baixinho para minha alma. Dizia que queria sempre ter me conhecido melhor, ter tido a chance de poder conversar mais comigo.
Eu não podia acreditar no que presenciava: a mulher que eu mais desejei, sentia alguma coisa por mim, e eu não me conformava agora em não ter dito para ela o que eu sentia, e ter quem sabe, conseguido seu amor.
Após algumas orações, ela se levantou, despediu-se com carinho e num ato incompreendido por mim, colheu-me e levou-me junto com ela. Mas que bom... sentia sua mão deslizar pelo meu caule. Sentia seu perfume. E eu não podia entender mesmo assim o seu ato, de colher um simples pé de feijão na beira de uma tumba. Foi então que um murmúrio seu cortou minha alma, bem fundo. E me mostrou como eu era um ser egoísta, me mostrou como eu não reparava que as pequenas e simples coisas, como um pé de feijão podiam representar muito para as pessoas que gostam, que amam.
E foi isso. O que ela disse foi exatamente que com aqueles grãos de feijão, dos quais eu era um e ela não sabia, por estarem ali na minha última morada, estavam me representando, e com eles ela faria uma feijoada em memória de mim e a comeria, e mastigaria devagarinho, para que sentisse aqueles feijões como se estivesse me sentindo.
Assim como eu imaginara senti-la, ela também imaginava a mesma coisa comigo. Meu Deus, era a glória esse momento. Estava feliz, sem arrependimentos, sem remorsos.
Ela me preparou com carinho e capricho. Cozinhou-me e colocou-me em seu prato. Pegou o garfo e ah... me levou de encontro à sua boca. Meu Deus, agora eu sentia sua boca, sua saliva, sua língua... que sonho bom era aquele momento. Ela me mastigava devagar, enquanto dizia baixinho me sentir; e sem saber que, sentia mesmo. E eu, estava no céu agora... mas tudo então começou a escurecer, me senti entorpecer, perdendo os sentidos, parecia que... ah, agora me lembro: ELE disse que eu iria morrer esmagado. Mas eu me sentia era vivendo, vivendo intensamente, e não morrendo. Vivia. Vivia agora maravilhosamente extasiado entre seus dentes, sua boca, até que... tudo se acabou novamente.
Voltei ao meu estado de espírito e novamente á minha boa e velha cova. Agora estava eu ali, sozinho novamente. Mas feliz. Muito feliz em ficar no purgatório, pois aquela foi a melhor coisa que me acontecera até então. Senti a garota, ela me sentiu.
De repente me dei conta que as maiores coisas, as mais belas coisas, estão nas menores representações possíveis, desde que haja amor. Aprendei que nunca é tarde para amar e que quando se tem algum sonho, algum desejo, é preciso batalhar para conseguir, sob pena que depois ter de ficar se remoendo de arrependimentos. Mas se batalhar com amor, haverá a recompensa, como houve agora. Agora eu pensava em passar o purgatório todo feliz, quando escutei:
- Filho!
Olhei e vi o Pedroca, com um semblante feliz, sereno, e fiquei surpreso
- Vamos filho, Ele o chama.
- Não, Pedro, tenho que ficar para...
- Não, filho, Ele o perdoou, pois você viu, sentiu e arrancou o remorso, o arrependimento de dentro de ti. E era isso que Ele queria.
Fui para o céu, e voltei para minha velha e macia nuvem, com a certeza de que qualquer coisa que se faça, deve ela ser feita com AMOR. Pois se há amor, não há a mínima chance de haver arrependimento.